Falantes de português no mundo espanglês: como os brasileiros se adaptam a uma sociedade hispano-americana

Bandeira nacional patriótica do Brasil. Cortesia de Pete Linforth e Pixabay
Bandeira nacional patriótica do Brasil. Cortesia de Pete Linforth e Pixabay.

Os Estados Unidos se transformaram em um centro comum de oportunidades. Muitas pessoas viajam para os Estados Unidos em busca de emprego e oportunidades para estudar. A Embaixada e o Consulado dos EUA no Brasil informam que durante o ano acadêmico de 2017-2018 o número de estudantes internacionais brasileiros nos Estados Unidos aumentou para 1.094.792 (U.S. Mission in Brazil, 2018). O Escritório de Assuntos Educacionais e Culturais do Departamento de Estado dos EUA indica que o Brasil é o 10º país do mundo a enviar alunos aos Estados Unidos

Praça do Mercado em San Antonio, Texas. Cortesia de Zachary Satko e Shutterstock.

San Antonio, Texas, uma cidade com muita diversidade, atrai muitas pessoas para trabalhar e estudar. Nessa diversidade, muitos aprendem que a vida nos Estados Unidos é mais do que apenas o uso do inglês, mas também a apreciação de outras línguas.

Então, quantas línguas podem ser usadas no San Antonio? O Rotary Club of San Antonio informa que em todos os 86 códigos postais do condado de Bexar, há pessoas que falam um idioma diferente do inglês, sendo 34% falantes de espanhol. Além disso, ao focar no lado oeste da cidade, a porcentagem de falantes de espanhol aumenta enormemente para 72% (Royall, 2018). O espanhol e o inglês vivem juntos e agora têm sua própria categoria no que é conhecido como ‘espanglês’, um idioma caracterizado pela troca de código e por empréstimos entre espanhol e inglês (Bierly, 2019). 

No lado oeste de San Antonio fica a St. Mary’s University. A St. Mary’s University construiu uma base sólida em seus vários programas, como o departamento de línguas, sendo o espanhol um dos programas mais antigos do campus, e com a criação do programa de português em 1999 (St. Mary’s University, n.d). Pode-se presumir que os alunos são tão diversos quanto os programas existentes na Universidade. Em 2019, a Universidade informou que 2.127 de um total de 3.514 alunos foram identificados como hispânicos / latinos, com um total de 33 nacionalidades diferentes representadas no campus (Office of Institutional Effectiveness, 2019). Entre os estudantes internacionais, estima-se que haja aproximadamente um estudante brasileiro no campus (College Factual, n.d.). A St. Mary’s University tem professores e alunos que falam português, poucos falantes nativos e mais falantes não nativos. Portanto, o uso do português é mínimo, mas apreciado na Universidade.

Então, para falantes nativos de português, como eles estão abraçando a cultura espanglesa? A verdade é que é difícil para eles usarem vários idiomas em um único ambiente. Deni Cresto e Dra. Eva Bueno, falantes de português e nativos do Brasil, explicam como suas habilidades multilíngues se tornaram eficazes na universidade e algun

“Do you speak english?” (Você fala inglês?) Em um quadro negro. Cortesia de Gerd Altmann e Pixabay

s dos problemas que surgem com a adaptação a tantos idiomas.

Em todo caso, pode-se presumir que, morando em San Antonio, Texas, seja bilíngue em inglês e espanhol, mas para Deni Cresto é diferente. Deni viajou para os Estados Unidos como estudante internacional do Paraná, Brasil. Antes de vir para este país, Deni já tinha uma experiência bilíngue como falante nativo de português e italiano. Antes de morar nos Estados Unidos, Deni teve que aprender inglês para estudar na St. Mary’s. Ele comenta que embora o colégio tivesse aulas de inglês, os estudantes nunca praticavam falar inglês de forma comunicativa, por isso eles  não eram fluentes em inglês. Ele mesmo praticou inglês sozinho durante seis meses antes de começar seus estudos no St. Mary’s University.

Relembrando o tempo que passou no primeiro ano de Universidade, Deni lembra suas dificuldades no começo do primeiro ano universitário para entender as aulas e o ritmo que estavam tomando. Mas os sotaques também tiveram um grande papel em sua compreensão nas falas no cotidiano. Ele observou que o sotaque texano era difícil de entender por causa de como as frases texanas eram pronunciadas. Isto não é algo novo para falantes não nativos. Um artigo da Universidade de Massachusetts observa que alunos não nativos em inglês têm dificuldade para seguir o ritmo das aulas e o sotaque das pessoas do Nordeste, especialmente dos professores, e isto pode afetar a compreensão dos alunos na língua inglesa (Kamara, 2004). No entanto, no início da universidade, Deni nunca se envergonhou de sua habilidade de falar inglês, pois ele sabia que era um trabalho em andamento. Usando seu inglês, apesar de fazer um progresso constante, Deni afirma principalmente: “Meu objetivo é ser compreendido.”

Na St. Mary’s, sendo uma escola com uma grande população de falantes de espanhol, o espanhol é encontrado em muitos lugares. Por falar em espanhol, Deni disse que não teve problemas em entender o espanhol nas conversas. Claramente isso pode ser por causa das semelhanças que o espanhol tem com o português. Um estudo descobriu que o espanhol e o português são 50-60% mutuamente intelectualmente, impulsionados pela escuta passiva. Mas isso pode ser afetado por outras conversas e fatores pessoais, alguns possivelmente sendo recursos visuais e sotaques por meio de transmissão de voz direta (Jensen, 1989). Com a grande quantidade de espanhol ao qual Deni foi exposto, você pensaria que ele seria fluente em espanhol, mas este não é o caso do Deni. Deni sendo trilíngue em português, italiano e inglês, ele diz que não encontrou tempo para aprender espanhol de forma mais formal. Dito isso, como alguém pode estar familiarizado com o espanhol ou o espanglês se não é fluente nisso?

Por fazer parte de uma comunidade de falantes de espanhol, Deni definitivamente compartilhou experiências com amigos que falam inglês e espanhol e, em muitos casos, espanglês. Ele diz que conseguia entender quem falava espanhol, mas que ele respondia em inglês. Com este novo conceito de linguagem, podemos supor que isso pode ser um desafio para aprender e compreender. No entanto, Deni não teve problemas em reconhecer as mudanças de linguagem e a mistura de palavras. Ele ressalta que se expôs ao espanglês diariamente com seus colegas e diz que acha isso ótimo. Além de entender o conceito de espanglês, Deni é capaz de reconhecer as maneiras como também usa o conceito. Embora ele não use o espanglês diariamente, ele usa uma mistura de português e italiano como se usaria o inglês e o espanhol no espanglês. A mistura de idiomas não é algo novo ou feito exclusivamente para usuários de espanhol e inglês, mas há estudos de que existem outras variedades nas misturas de idiomas. Alexiadou e Lohndal (2018) explicam que a mistura de linguagens é um fenômeno onipresente. Os autores se aprofundam em idiomas mistos, como inglês-norueguês, grego-inglês, grego-alemão e espanhol-alemão. No entanto, o mix de idiomas nunca se limita a esses pares e está aberto a todos que queiram utilizá-lo.

Sobre ser uma falante nativa de português que está exposta ao espanglês do San Antonio, a Dra. Bueno oferece informações valiosas de sua experiência. A Dra. Bueno, nativa do Paraná, Brasil, veio para San Antonio em julho de 2002 para trabalhar na St. Mary’s como professora de línguas. Ela aprendeu e falava inglês formalmente na escola desde os dez anos de idade. Ela comenta que os idiomas sempre foram de seu interesse e por isso também aprendeu espanhol, italiano, francês e japonês. Em San Antonio, você não tem a oportunidade de falar todos os idiomas em dias normais. Ela comenta que, dependendo do tipo de dia, muda sua preferência de idioma. Em um dia normal, como professora na St. Mary’s, ela usa o inglês, espanhol e português com mais frequência. É verdade que a Dra. Bueno encontrou um programa de línguas que se adequa ao seu gosto. Ela diz “Gosto de conversar com pessoas que querem aprender português!”

Com qualquer tipo de falante não nativo, sempre haverá um problema de comunicação quando se trata de tradução e significado. A maior preocupação é que às vezes não há palavras em um idioma para traduzir o que alguém está tentando dizer em outro. Deni diz: “Existem alguns termos que estão apenas em português e não fazem sentido em inglês”. Este problema é mais comum do que se pode imaginar, Matt Abrahams, professor de comunicação da Universidade de Stanford, afirma que muitos falantes não nativos têm esse problema porque eles tentam encontrar a palavra certa, o que os faz perder a cabeça. Pelo contrário, as pessoas deveriam se concentrar em praticar o que eles estão tentando dizer completamente (Abrahams, 2020).

Deni, porém, ressalta que seu notável progresso é resultado da prática constante no uso do inglês. Juntamente com o Dr. Abrahams, Dr. Kenneth Romeo, diretor do Stanford Language Center, aponta que, independentemente da idade e da prática do indivíduo, um falante não nativo nunca será capaz de alcançar o status de falante nativo. Além disso, pode-se obter o nível próximo o suficiente com confiança e prática (Abrahams, 2020). Assim, Deni e Dra. Bueno sabem que embora possam nunca alcançar um inglês ou espanhol perfeito como um falante nativo, eles podem se aproximar com a prática. Ao falar com outras pessoas em sua língua não nativa, eles tentam não complicar o que estão dizendo e tentam ser diretos.

Saias coloridas voam durante as danças tradicionais mexicanas. Cortesia de Simone Hogan e Shutterstock.

San Antonio e a St. Mary’s University são reconhecidos como lugares diversos por todas as nacionalidades que encontram. Estando deslocados como falantes nativos do português, Deni e a Dra. Bueno puderam usar o que aprenderam para fazer conexões significativas e obter percepções que não poderiam ser obtidas em outro lugar. No geral, o uso do português tem sido mínimo para Deni e Dra. Bueno, mas eles valorizam quem tenta aprender e falar com eles em português. O uso de espanhol e inglês no campus da St. Mary é extremamente popular, mas Deni e Dra. Bueno concordam que é o inglês que desempenha um papel fundamental em suas carreiras. Além disso, Deni disse que falar inglês é crucial.

Para falantes de português, ou qualquer falante não nativo de inglês ou espanhol, vale a pena aprender outras línguas. O tempo focado nas línguas têm um impacto sobre o quanto pode ser usado ao longo da vida. Aprender línguas pode elevar o conhecimento de outras práticas culturais. Quem interage com outras línguas pode também aprender e apreciar como os relacionamentos dentro de uma comunidade constituem aquilo que transforma seus modos de ser numa nova cultura.

Referências

Abrahams, M. (2020, April 10). Don’t get lost in translation: How non-native speakers can communicate with confidence. Stanford Graduate School of Business. https://www.gsb.stanford.edu/insights/dont-get-lost-translation-how-non-native-speakers-can-communicate-confidence

Alexiadou, A., & Lohndal, T. (2018). Units of language mixing: A cross-linguistic perspective. Frontiers in Psychology9https://doi.org/10.3389/fpsyg.2018.01719

Bierly, R. (2019, May 2). Spanglish: The validity of Spanglish as a language. Panoramas. https://www.panoramas.pitt.edu/opinion-and-interviews/spanglish-validity-spanglish-language

College Factual (n.d.). St. Mary’s University internationalhttps://www.collegefactual.com/colleges/st-marys-university/student-life/international/

Jensen, J. B. (1989). On the mutual intelligibility of Spanish and Portuguese. Hispania72(4), 848–852. https://doi.org/10.2307/343562

Kamara, A. (2004). Non-native English speakers and their experience in college: A study based on interview conducted with international students at the University of Massachusetts in Amherst (Master’s thesis). University of Massachusetts Amherst. https://scholarworks.umass.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1098&context=cie_capstones

Office of Institutional Effectiveness. (2019). 2019 university profile (Data file). St. Mary’s University.

Royall, E. (2018, August 1). TopoGeo: Where San Antonio is the most multilingual. San Antonio Report. https://sanantonioreport.org/topogeo-where-san-antonio-is-the-most-multilingual/ 

St. Mary’s University. (n.d.). Study Portuguese at St. Mary’shttps://www.stmarytx.edu/academics/programs/portuguese/

U.S. Mission in Brazil. (2018, November 13). Brazil is the 10th leading country worldwide sending students to the United States. U.S. Embassy and Consulate in Brazil. https://br.usembassy.gov/brazil-is-the-10th-leading-country-worldwide-sending-students-to-the-united-states/

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